Netflix grátis na Europa pode ser uma das consequências das tarifas de Trump

A guerra das tarifas lançada pelo presidente norte-americano pode ter consequências bizarras como, por exemplo, Netflix grátis na Europa. “Se não respeitam a ordem internacional, também não respeitaremos a vossa”, diz o economista Renaud Foucart.

Netflix grátis na Europa pode ser uma das consequências das tarifas de Trump

A aplicação de tarifas a todo o mundo anunciada por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, será prejudicial para todos, dizem unanimemente os economistas. Mas há o reverso da medalha. Por exemplo, Netflix grátis para os europeus. “Diria que se [os EUA] não respeitam a ordem internacional, das regras do comércio ao direito internacional e acordos climáticos, nós também não respeitamos as vossas regras. Ninguém na UE será processado por piratear um programa da Netflix ou por criar um clone gratuito de software ou aplicações norte-americanas”, exemplifica Renaud Foucart, professor sénior de Economia da Universidade de Lancaster, do Reino Unido. Será mesmo assim? Aparentemente, sim.

Num discurso cuidadosamente coreografado a partir do Rose Garden da Casa Branca, Trump anunciou um pacote maciço de tarifas comerciais que incluem 10% sobre importações do Reino Unido, 20% para a União Europeia, 24% sobre as do Japão, 27% para a Índia e 34% para a China. Uma tarifa é, na prática, um imposto sobre importações, pago por produtores e consumidores do país importador.

Os produtores dos EUA “pagarão mais pelas importações – as coisas de que precisam para produzir seus bens – do resto do mundo”. Os consumidores dos EUA pagarão mais pelos produtos importados, mas “também pagarão mais pelos bens fabricados nos próprios EUA” e razão é fácil de perceber. “Os custos de produção aumentarão e os produtores dos EUA enfrentarão maior procura dos consumidores que tentem substituir os das importações”, esclarece Foucart.

As tarifas desempenham um papel na proteção de indústrias nacionais ou em países com capacidade estatal limitada. Podem proteger algumas empresas e trabalhadores estratégicos ou politicamente poderosos da competição internacional, mas, “na maioria das vezes, apenas prejudicam todos os envolvidos direta ou indiretamente“. Se é assim, o que está afinal o governo Trump a tentar alcançar?

“O objetivo oficial é ter um imposto suficientemente alto para reduzir o desequilíbrio comercial entre os EUA e o resto do mundo. Os EUA importam bens e serviços que valem, a cada mês, dezenas de milhares de milhões de dólares norte-americanos a mais do que aqueles que exportam. Desde que Donald Trump voltou ao poder, as empresas dos EUA anteciparam tarifas futuras importando mais – levando ao aumento do deficit para um recorde de 131 mil milhões de dólares (118,7 mil milhões de euros) em janeiro, duas vezes maior do que um ano antes”, constata o economista.

A forma como o déficit comercial dos EUA funciona “é simples”. “Os consumidores dos EUA compram produtos baratos de outros países e em troca imprimem dinheiro a baixo custo. O truque é que o resto do mundo compra moeda dos EUA como reserva de valor ou para investir em ativos dos EUA – o que é, aparentemente um acordo de sonho. Os norte-americanos ficam mais ricos e o país é inundado com investimentos, tornando-se no centro tecnológico do mundo, mantendo, por sua vez, o dólar forte.”

Contudo, como cada moeda tem dois lados, aqui está o outro, “cada vez mais prevalente nos círculos que cercam o presidente dos EUA”. “Este ‘acordo de sonho’ é mau para a indústria dos EUA e cria uma dependência de produtores e investidores estrangeiros. Crucialmente, depende de os EUA permanecerem como a moeda definitiva em perpetuidade.” O plano, explicado até aqui por Renaud Foucart, ajudará Trump a atingir a meta de reduzir as importações em relação às exportações? “As tarifas não aumentarão as exportações, mas, ao tornar os produtos estrangeiros mais caros, poderá diminuir maciçamente as importações.”

Na prática, isto só é sustentável se os EUA “quiserem ficar permanentemente mais pobres”. “Se se tornar suficientemente fraca para que o dólar norte-americano não seja um investimento desejável, a economia dos EUA pode tornar-se na fábrica do mundo e vender produtos baratos, sem poder pagar o que os estrangeiros produzem.” Nada disto é novo, no entanto. Nas lembrar a estratégia de desenvolvimento da China em meados dos anos 2000

O momento e a forma de escolher uma resposta e… Netflix grátis

“Se é isto que os cidadãos dos EUA pretendem alcançar é uma questão deles. Quanto ao resto do mundo, chegou a hora de decidir como reagir. A opinião razoável, defendida pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, é esta: se as tarifas são más, adicionar mais em retaliação não será melhor. O Reino Unido está, portanto, preparado não para retaliar, mas para procurar um acordo comercial com os EUA e dar a Trump corda suficiente para recuar.”

Remover barreiras comerciais bilaterais seria “bom para ambas as economias“. E “enviaria igualmente uma mensagem de que a forma de obter concessões do Reino Unido é intimidá-lo”. “Os EUA e todos os outros aprenderão a lição e agirão de acordo no futuro. Um acordo acabará também com o imposto embrionário coletado desde abril de 2020 sobre as receitas de gigantes da tecnologia como Amazon, Google e Meta. Dada a sua crescente importância, esta isenção de imposto significaria de facto taxas cada vez maiores para trabalhadores e empresas britânicas.” E a União Europeia, que escolherá outro caminho?

O caminho da retaliação, seguido pela Comissão Europeia, é “retaliar e esperar que isso force os EUA a recuar”. Como aconteceu durante a primeira administração de Trump, a UE “taxará um subconjunto escolhido de produtos dos EUA, como motos Harley Davidson e bourbon“. “Mas o objetivo é fazer muito mais e usar o tamanho do mercado único da UE para atacar a força motriz do crescimento económico dos EUA: os seus gigantes da tecnologia”, observa Foucart.

A ferramenta “mais ousada é o novo ‘instrumento anticoerção’, desenvolvido pela Comissão Europeia em antecipação a um segundo mandato de Trump”. Trata-se de um processo legislativo muito lento, mas “potencialmente devastador”, que chega ao ponto de “permitir a suspensão de direitos de propriedade intelectual para empresas sediadas em países que tentam coagir estados-membro através de guerra económica”. O que isto pode significar, na verdade, “é a UE escolher não aplicar leis internacionais que protegem a propriedade intelectual de empresas norte-americanas”.

“A UE diria: se vocês não respeitam a ordem internacional, das regras do comércio ao direito internacional e acordos climáticos, nós também não respeitamos as vossas regras. Na prática, ninguém dentro da UE seria processado por piratear um programa da Netflix ou por criar um clone gratuito de software ou aplicações dos EUA até que os EUA regressem a um padrão de comportamento mais cooperativo.”

O problema “óbvio” desta abordagem é “o que fazer se os EUA não adotarem um comportamento mais cooperativo”. Isto “pode levar ao caminho mais dramático – uma reorganização da ordem mundial que evite, dentro do possível, os EUA”. Os media chineses relataram, por exemplo, que a China está a tentar uma aproximação aos aliados dos EUA – Coreia e Japão – para superar as tarifas globais.

“Uma espécie de ‘coligação dos dispostos’ com um grupo maior de países para recriar a cooperação global parece hoje absurda. Mas acabaria com o domínio do dólar norte-americano, permitindo que o país equilibrasse o seu deficit comercial. Também levaria o mundo para territórios económicos e políticos desconhecidos”, diagnostica Renaud Foucart, professor sénior de Economia da Universidade de Lancaster, do Reino Unido.

The Conversation

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